Quando agosto se aproxima, é comum que as escolas comecem a organizar lembranças, cartões, entrevistas e encontros para o Dia dos Pais. Junto com o planejamento, porém, pode surgir uma dúvida importante: como conduzir essas propostas quando algumas crianças não têm o pai presente?
A ausência paterna pode estar relacionada a diferentes situações. O pai pode ter falecido, morar longe, não manter contato ou não participar da rotina. Algumas crianças vivem com duas mães, avós, tios, famílias adotivas ou outros adultos de referência. Também podem existir conflitos e situações delicadas que não são de conhecimento da escola e que não devem ser investigadas durante uma atividade coletiva.
Considerar essas realidades não significa deixar de valorizar os pais presentes e participativos. Significa apenas reconhecer que a turma não é formada por histórias iguais. Com planejamento e liberdade de escolha, a homenagem pode continuar acontecendo sem que nenhuma criança precise explicar publicamente aquilo que vive.
Uma data que pede sensibilidade
Muitas vezes, o constrangimento não nasce da intenção da atividade, mas da maneira como ela é apresentada. Pedidos como “desenhe você e seu pai”, “conte o que mais gosta de fazer com ele” ou “traga seu pai para a apresentação” partem do princípio de que todas as crianças têm esse vínculo disponível.
Para algumas, responder será simples e prazeroso. Para outras, pode despertar saudade, tristeza, raiva, vergonha ou silêncio. Há também crianças que sabem exatamente quem desejam homenagear, mas temem que sua escolha seja diferente da esperada pela turma.
Por isso, o cuidado precisa aparecer desde o início do planejamento, e não somente quando a criança demonstra desconforto. Na Educação Infantil, a BNCC valoriza o respeito às diferenças, a expressão de sentimentos e a construção da identidade a partir dos diferentes grupos de pertencimento. Essas ideias também podem orientar a maneira como a escola trabalha as datas comemorativas.
Conheça a turma antes de definir a proposta
Antes de escolher a atividade, professor e coordenação podem revisar, com discrição, as informações que a escola já possui. Quem são os responsáveis cadastrados? Quais adultos acompanham a criança? A família já comunicou algum falecimento, afastamento ou cuidado especial relacionado ao tema?
Esse levantamento não deve servir para classificar famílias ou buscar detalhes da vida privada. Sua função é evitar exposições previsíveis. Como nem todas as situações estarão registradas, o mais seguro é criar uma proposta flexível mesmo quando, aparentemente, todos os pais estão presentes.
Quando for necessário conversar com uma criança, o diálogo deve acontecer de forma reservada e sem perguntas invasivas. Em vez de perguntar onde está o pai ou por que ele não participa, uma possibilidade é dizer:
“Estamos preparando uma atividade para uma pessoa importante. Em quem você gostaria de pensar para fazê-la?”
A criança não precisa justificar sua escolha nem contar sua história diante dos colegas. Ela pode homenagear o pai, uma figura paterna, outro adulto de referência, mais de uma pessoa ou, se estiver desconfortável, realizar uma proposta diferente.
Uma comunicação prévia com as famílias também ajuda. A escola pode explicar que trabalhará o Dia dos Pais de maneira acolhedora e que cada criança terá liberdade para escolher o destinatário da atividade. O contato deve abrir espaço para orientações particulares, mas sem exigir que os responsáveis revelem situações íntimas.
Como conduzir a homenagem com mais naturalidade
A palavra “pai” não precisa ser retirada de todas as propostas. Pais presentes podem e devem ser reconhecidos. O cuidado está em não apresentar essa vivência como a única possível. Expressões como “seu pai ou uma pessoa importante para você”, “uma figura paterna” ou “um adulto de referência” ampliam a participação sem apagar a data.
Essa abertura também precisa aparecer nos materiais. Um cartão com a frase pronta “Você é o melhor pai do mundo”, por exemplo, deixa pouco espaço para adaptação. Já mensagens como “Gosto quando nós...”, “Uma lembrança especial é...” ou “Uma coisa que aprendo com você é...” podem ser completadas de acordo com a relação escolhida pela criança.
O mesmo cuidado vale para cafés, oficinas e apresentações. Mesmo quando o evento é voltado aos pais, a escola pode permitir a presença de uma figura paterna ou de outro adulto indicado pela família. Também é importante lembrar que alguns convidados não poderão comparecer por causa do trabalho, da distância ou de outras circunstâncias. A presença física não deve ser tratada como prova de afeto ou interesse.
Se a criança se recusar a participar, a insistência dificilmente tornará a experiência mais positiva. Uma atividade alternativa sobre cuidado, memórias, amizade ou pertencimento pode ser oferecida sem punição e sem explicações diante da turma.
Propostas que valorizam os vínculos
Uma possibilidade é produzir um livro coletivo sobre as diferentes formas de cuidar. Cada criança pode representar um gesto que reconhece em sua rotina, como contar uma história, preparar uma refeição, brincar, buscar na escola, ensinar algo novo ou oferecer consolo. Dessa forma, o grupo conversa sobre vínculos sem precisar expor a composição de cada família.
Outra ideia é preparar cartões com diferentes aberturas, deixando que cada criança escolha entre “Para o meu pai”, “Para uma pessoa especial” ou uma capa em branco. A variedade deve estar disponível para toda a turma, sem separar previamente quem tem ou não tem o pai presente.
Entrevista sobre cuidado e o Jornal de Dia dos Pais
As entrevistas podem criar momentos afetivos e ajudar a criança a conhecer melhor a história do adulto homenageado. Perguntas sobre profissão, sonhos, comidas preferidas, brincadeiras, momentos vividos juntos e conselhos importantes costumam gerar conversas significativas.
Como exemplo, estamos disponibilizando o Jornal de Dia dos Pais, um material em formato de edição especial. Ele reúne espaço para fotografia, informações sobre o pai, perguntas rápidas, uma entrevista sobre a relação entre pai e filho e uma mensagem especial para a criança.
Como o jornal foi criado especificamente para homenagear o pai, é importante que a escola verifique previamente para quais crianças essa proposta faz sentido. Quando necessário, o professor pode oferecer uma versão adaptada ou outra atividade, sem destacar diante do grupo quem recebeu uma opção diferente.
A literatura infantil também pode contribuir, especialmente quando livros com diferentes configurações familiares fazem parte da rotina durante todo o ano. Esses títulos não devem ser usados para apontar a história de uma criança específica, mas para ampliar o repertório de toda a turma.
Cuidados que não podem faltar
Algumas atitudes são especialmente importantes para preservar a privacidade e a segurança emocional das crianças:
- não pedir que contem publicamente com quem moram ou por que o pai está ausente;
- não determinar quem deve receber a lembrança;
- não obrigar um avô, padrasto, tio ou outro adulto a ocupar o lugar de pai;
- não usar expressões como “pai de verdade”, “família normal” ou “homem da casa”;
- não pressionar a participação em atividades ou apresentações.
Silêncio, irritação, choro ou recusa podem indicar desconforto, mas não permitem que a escola tire conclusões sobre a família. Acolher pode significar simplesmente dizer que a criança não precisa falar naquele momento e que outra possibilidade será encontrada.
Caso surja um relato relacionado a violência, abandono ou risco, o professor não deve investigar por conta própria nem prometer segredo. A situação precisa ser encaminhada de acordo com os protocolos de proteção da escola.
Acolher não significa apagar a homenagem
Trabalhar o Dia dos Pais de maneira inclusiva não significa ignorar pais amorosos, presentes e participativos. Significa reconhecer esses vínculos sem transformar uma única configuração familiar em regra para todas as crianças.
Quando a escola conhece sua comunidade, conversa com as famílias, oferece escolhas e evita exposições, a data pode continuar sendo um momento de afeto. Pequenas mudanças na linguagem, nos materiais e na organização das atividades ajudam a tornar a experiência mais segura e significativa.
Cada família tem sua história. Uma proposta acolhedora permite que cada criança participe a partir dos vínculos que fazem parte de sua vida, respeitando seu ritmo, seus sentimentos e sua privacidade.
